Realizador: James Mangold Com: Russell Crowe, Christian Bale, Logan Lerman, Dallas Roberts, Ben Foster, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Alan Tudyk, Luce Rains, Gretchen Mol, Lennie Loftin, Rio Alexander
3:10 to Yuma (1957)
Realizador: Delmer Daves Com: Glenn Ford, Van Heflin, Felicia Farr, Leora Dana, Henry Jones, Richard Jaeckel, Robert Emhardt, Sheridan Comerate, George Mitchell, Robert Ellenstein, Ford Rainey
Confesso que sou um apreciador do western. Um género que caiu em desuso há muito e que, de tempos a tempos, reaparece solitariamente nos ecrãs, fruto da teimosia de alguns saudosistas para satisfação de outros, como eu. Geralmente em boas produções que lhe fazem justiça. Cinquenta anos depois James Mangold refez um clássico de Delmer Daves, escrito por Halsted Welles a partir de um conto da autoria de Elmore Leonard. O argumento do novo filme contou ainda com algumas revisões da autoria de Michael Brandt e de Derek Haas. E o argumento é, sem dúvida, o prato forte desta obra, que inspiraria (juntamente com High Noon, realizado por Fred Zinnemann em 1952) Howard Hawks a realizar o famoso Rio Bravo em 1959. Os anos 50 trouxeram uma nova dimensão ao western, uma consciência social. 3:10 to Yuma é claramente um dos bons exemplos de um western maduro a que o argumento de Welles empresta ainda uma tensão psicológica que o aproxima do thriller. Por isso, ao vermos o clássico de 1957, parece-me forçoso concluir que este remake era de todo desnecessário. A obra original mantém todo o seu interesse, na excelente cinematografia a preto e branco de Charles Lawton Jr., na realização competente de Daves e nos excelentes desempenhos dos dois protagonistas, Glenn Ford e Van Heflin, além, claro está, do belíssimo argumento. Felizmente, apesar de desnecessário, o filme de Mangold não resulta num mero pretexto para levar aos cinemas as fãs de Russell Crowe. Embora algumas das alterações ao argumento, sobretudo o final, possam ser polémicas, penso que quem assistir ao filme não dará o seu tempo por perdido, e assistirá, ainda assim, a um bom western, competentemente dirigido e bem interpretado pela dupla Russell Crowe e Christian Bale, contando com bons valores de produção. Ainda que nada acrescente de relevante à obra original. Ben Wade (Glenn Ford, Russell Crowe) é um notório assaltante de diligências que aterroriza, com o seu bando, as cidades do árido Arizona. Após um assalto deixa-se reter por uma velha paixão na cidade de Bisbee o que permitirá a sua captura. Torna-se contudo necessário levá-lo até à prisão estadual de Yuma, mas todos temem a reacção do bando, que tudo fará para libertar o seu chefe. Dan Evans (Van Heflin, Christian Bale) é um modesto fazendeiro de Bisbee a braços com dificuldades económicas decorrentes da seca, que não consegue resolver. Quando Mr. Butterfield (Robert Emhardt, Dallas Roberts), dono da companhia de diligências (no remake de Mangold, Butterfield é dono de uma companhia ferroviária que ameaça as terras de Evans e a diligência assaltada, o seu carro de transporte de valores), oferece uma choruda recompensa para quem o queira acompanhar na escolta do prisioneiro até Contention, local onde será enviado no comboio das 3:10h para Yuma, Evans vê a sua derradeira oportunidade para salvar a quinta e a família da miséria, e aceita. Inicia-se então um intenso drama psicológico que opõe Wade, um ladrão que vai adquirindo respeito pela dignidade e ética do fazendeiro, e Evans, o homem sério que vê a sua coragem e honestidade serem colocadas permanentemente à prova pelos constantes aliciamentos de Wade e pelo terror incutido pelo seu bando. A presença da família de Evans ajuda a construir o perfil psicológico dos dois personagens. Por um lado o foragido galante e conhecedor do mundo, que consegue atrair com o seu charme a mulher de Evans (Leora, Dana, Gretchen Mol) e com a sua coragem os filhos do casal (Barry Curtis e Jerry Hartleben, Logan Lerman e Benjamin Petry) e que, de certo modo, inveja a vida familiar do fazendeiro, vedada pela opção que tomou pelo crime. Por outro o pacato agricultor que quer mostrar à mulher e aos filhos, e sobretudo a si mesmo, que também ele é um homem de coragem e de valor, apesar da vida miserável que leva e que proporciona à sua família. Um misto de inveja e de despeito, além da necessidade do dinheiro, levam-no a aceitar a ingrata tarefa. Esta permanente oposição de valores conduz contudo a que ambos dediquem ao outro um respeito que se vai intensificando até final, à medida que, pelo contacto permanente, melhor se conhecem. E no fundo a história revolve à volta disso mesmo, dos valores que ambos acalentam, apesar de todas as vicissitudes (o crime, a pobreza, o facto de se encontrarem em lados opostos da lei). Aí reside a essência da condição humana e por isso ambos vêem crescer um sentido de respeito, de dignidade, um pelo outro, apesar de se encontrarem no lado oposto das armas. O esperado duelo final, em que o bando de Wade finalmente defronta o guardião do seu chefe, aparece assim como um confronto contra-natura, simultaneamente aguardado e indesejado pelos dois protagonistas. Wade compreende que a derrota de Evans será de algum modo também a derrota de um homem honrado e dos princípios em que acredita. Evans por seu turno precisa de entregar aquele homem, por quem desenvolveu respeito e amizade, não só para salvar a sua quinta mantendo íntegra a sua honra, mas também para reconquistar o respeito por si próprio, atenta a vida dura que tem imposto à sua família. Nesse sentido parece-me irrelevante a alteração perpetrada no final do filme, no remake de 2007. O essencial da obra está precisamente na construção desse respeito mútuo que leva à entre ajuda dos protagonistas, no duelo final rumo ao comboio para Yuma. Em ambos Evans consegue os seus objectivos com a colaboração de Wade. Em ambos Evans ganha o respeito de todos e recupera o seu amor-próprio.
Realizador: Joel Coen Com: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Cedric the Entertainer, Edward Herrmann, Paul Adelstein, Richard Jenkins, Billy Bob Thornton, Julia Duffy, Jonathan Hadary
Intolerable Cruelty é uma comédia aparentemente ligeira que esconde uma visão profundamente cínica do casamento e do sistema judicial norte-americano. À visão romântica do casamento, tantas vezes veiculada por Hollywood nas comédias românticas que serviram de inspiração à presente película, os irmãos Coen, com a sua habitual ironia e humor negro, contrapõem-nos uma visão puramente mercantilista, que não deixa de constituir uma perspectiva bem real do casamento nos tempos que correm. E será que alguma vez assim não foi? O casamento por amor é uma invenção do romantismo já que, até então, os aspectos patrimoniais sempre constituíram o principal móbil do matrimónio nas diferentes sociedades. O casamento é historicamente um contrato, que visa, muito mais do que legitimar relações amorosas ou a descendência dele resultante, titular negócios de natureza patrimonial. Ao retirarem aos progenitores a iniciativa contratual no que respeita ao casamento, os legisladores românticos não alteraram a natureza essencialmente patrimonial do instituto. Limitaram-se a transferir a capacidade contratual dos progenitores para os nubentes. Quem, como eu, vive o quotidiano dos Tribunais e das disputas litigiosas, designadamente as emergentes da dissolução do vínculo conjugal, sabe que a postura cínica de Miles (George Clooney) e Marylin (Catherine Zeta-Jones) face ao casamento é tudo menos infundada. Como diria Woody Allen, love fades. Depois resta apenas uma vontade irresistível de fazer sangue. Os Tribunais estão cheios de ex-casais apaixonados em disputas intermináveis de natureza patrimonial. Quando o amor acaba luta-se com unhas e dentes por tudo o que estiver ao alcance. Desde a valiosa moradia de férias até ao jogo de toalhas de casa de banho. Sem exagero. E podemos mesmo afirmar que a sociedade em que vivemos e o sistema judicial que a serve, não só permite como até incentiva estes comportamentos. Vivemos dias de profundo materialismo, em que o acesso ao conforto e aos prazeres de uma vida burguesa se assumem como valor supremo, claramente acima de quaisquer recompensas de índole espiritual. Quando o amor acaba há que garantir o conforto material futuro. É a compensação pelo tempo investido na relação, agora aparentemente perdido, e simultaneamente o castigo para quem dele usufruiu, imerecidamente. Se não souber como fazê-lo, há quem prontamente se disponha a ajudar. E esse é outro aspecto pertinente do filme. A denúncia de uma sociedade que soube construir toda uma economia à volta do fim do casamento. Desde as poderosas sociedades de advogados que ganham fortunas com os divórcios, até aos investigadores privados brilhantemente caricaturados pelo personagem Gus Petch (Cedric the Entertainer). Até o Estado, a pretexto do cumprimento das funções administrativa e judicial, não abdica do seu generoso quinhão, expresso em taxas cobradas pelos diversos serviços a quem é necessário recorrer para instruir os processos e bem assim em impostos cobrados sobre as transmissões patrimoniais decorrentes da partilha. Parece-me assim que a visão que a sociedade contemporânea espelha do casamento consegue ser ainda mais cínica do que a expressa neste filme. Sob a aparência de uma comédia romântica inspirada na eterna luta de sexos, imortalizada no grande ecrã por Cary Grant e Katherine Hepburn, os irmãos Coen apresentam-nos a imagem reflectida da nossa sociedade doente, cínica e materialista. Não admira pois que até a televisão comercial se interesse por este gigantesco mercado matrimonial, através dos reality shows. No adequado vernáculo de Gus Petch, vale tudo “To Nail His Ass”! Or hers…
Realizador: Ari Folman Com: Ari Folman, Miki Leon, Ori Sivan, Yehezkel Lazarov, Ronny Dayag, Shmuel Frenkel, Zahava Solomon, Ron Ben-Yishai, Dror Harazi
Nos dias 16, 17 e 18 de Setembro de 1982, milícias falangistas, fiéis ao presidente libanês Bashir Gemayel, assassinado dois dias antes num ataque bombista que vitimou igualmente vinte e seis outros membros do seu partido, vingaram a morte do líder massacrando milhares de palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, sobretudo idosos, mulheres e crianças, sob o olhar complacente dos soldados israelitas que ocupavam Beirute Ocidental. Ari Folman era um dos soldados israelitas colocados nas imediações dos campos. Waltz With Bashir é assim um filme na primeira pessoa. Uma viagem através da memória pessoal de Folman, em busca das recordações desses dias terríveis, através de entrevistas sucessivas com camaradas que com ele estiveram no Líbano e testemunhas do conflito. Os horrores da guerra e dos massacres são apresentados num filme de animação, terrivelmente belo, num onírismo deliberado que pretende precisamente evocar a progressiva reconstituição da memória pessoal e colectiva acerca do conflito. Folman optou por um estilo que faz lembrar os comics norte-americanos, mas ao juntar-lhe a cor, quase sempre em tons escuros e sombrios, acentua significativamente o dramatismo da obra. É contudo notória uma progressiva transição da paleta para cores mais claras, à medida que o filme se aproxima do fim. A mudança simboliza a progressiva reconstituição da memória do autor, culminando mesmo em filmagens reais dos cadáveres das vítimas dos massacres, empilhados nos campos, e das manifestações de pesar dos seus familiares, no final do filme. Como se das trevas se fizesse luz perante uma verdade finalmente revelada. Embora a obra não seja assumidamente política, é antes de mais um testemunho da experiência pessoal do autor e um manifesto pacifista, não deixa por isso de apontar responsabilidades aos comandantes israelitas e a Ariel Sharon, ao tempo Ministro da Defesa de Israel. Apesar de as tropas israelitas não terem cometido directamente os massacres, tiveram conhecimento deles e nada fizeram para os evitar. O filme acusa mesmo Sharon de ter deliberadamente ignorado as informações que lhe foram transmitidas sobre os massacres, facto aliás concluído igualmente pela Comissão Kahan designada pelo governo israelita para investigar os crimes. As chefias militares terão passivamente permitido que os massacres fossem praticados diante dos seus soldados sem tomarem qualquer iniciativa para os evitar. Nesse sentido Folman chama claramente a atenção para o paradoxo que constitui o facto de os filhos das vítimas de Auschwitz terem servido de cúmplices de crimes similares. É igualmente interessante que, no início do filme, quer o autor quer os seus camaradas de armas entrevistados, sofram todos de uma estranha amnésia que os impede de recordar os factos ocorridos durante a guerra do Líbano. É legítimo inferir que tal amnésia, mais do evocar traumas de guerra, seja uma acusação directa ao povo israelita e à comunidade internacional, por ter permitido que Sharon, apesar de pessoalmente responsabilizado pelo envolvimento nos massacres, continuasse a integrar o executivo israelita. Na verdade apesar de se ter demitido do cargo de Ministro da Defesa em 1982, na sequência das conclusões da Comissão de investigação aos massacres, continuou no Governo como Ministro sem pasta e ocupou mesmo, entre 2001 e 2006, o cargo de Primeiro-Ministro de Israel. A recuperação da memória colectiva é assim também um dos objectivos claros do filme. Mais do que exorcizar fantasmas do passado, Folman pretendeu construir uma obra que mostre a irracionalidade da guerra. Um testemunho na primeira pessoa para as gerações mais novas de que a guerra nada tem de digno ou de heróico. Apenas drama e degradação.
Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é violoncelista numa orquestra de Tóquio. Apesar da qualidade do trabalho desenvolvido o público não comparece aos concertos, o que leva à dissolução da orquestra e ao desemprego de Daigo. É confrangedora a cena em que assistimos à interpretação da nona sinfonia de Beethoven, com toda a pompa e eloquência que a obra exige, com mais de uma centena de músicos e cantores em palco, para uma plateia quase vazia. A dissolução da orquestra leva Daigo a reconsiderar a sua vida. Será que fez uma boa opção enveredando pela carreira de músico profissional? Será que possui o talento e a perseverança necessários para prosseguir nesse caminho? Incapaz de continuar a pagar as prestações do seu dispendioso violoncelo decide vendê-lo e regressar, com a sua jovem mulher Mika (Ryoko Hirosue), para Yamagata, a pequena cidade do interior onde nasceu e onde a mãe, recentemente falecida, lhe deixou uma casa. O regresso a Yamagata é, desde logo, um confronto com a morte da mãe e com as recordações de infância. Daigo não esteve presente no funeral da mãe porque se encontrava no estrangeiro e não conseguiu regressar a tempo de assistir à cerimónia, facto que, de algum modo, se recrimina. O pai deixou-os quando era ainda uma criança, o que Daigo nunca lhe perdoou. Não sabemos o que a mãe pensava sobre o assunto, mas Mika observa que ainda devia amar o marido, porque guardou religiosamente a sua colecção de discos. Foi o amor do pai pela música que levou Daigo a aprender violoncelo. Instalados na casa materna em Yamagata torna-se necessário assegurar a subsistência, pelo que Daigo responde a um anúncio do jornal, para o que julgava ser um emprego numa agência de viagens. Sucede porém que as viagens em questão eram para mais longe do que Daigo supunha… A agência NK é na verdade uma empresa de Nokanshi, o cerimonial fúnebre japonês de preparação dos cadáveres para o funeral e a cremação. O confronto quotidiano com a morte assusta-o. De igual modo a aceitação social da profissão está longe de ser consensual. Muitos olham-no com desprezo, incluindo a mulher, quando finalmente descobre qual a nova profissão do marido. Ao contemplar os salmões que sobem as águas revoltas do rio apenas para irem morrer no local onde nasceram, Daigo sente-se como eles, de regresso à sua terra natal para viver diariamente o drama da morte dos outros, até chegar a sua vez de partir. Mas, estranhamente, o violoncelista afeiçoa-se ao seu novo trabalho. Ao ver trabalhar o seu mestre Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki) e ao contactar com os familiares agradecidos dos defuntos, Daigo apercebe-se da beleza, da arte e da humanidade da profissão. Dedica-se-lhe de alma e coração tornando-se um excelente profissional. A mulher não compreende essa opção e pede-lhe para deixar aquele trabalho indigno. Como Daigo recusa, ela deixa-o e muda-se para casa dos pais. Quando finalmente regressa, informa-o que está grávida, esperando que o nascimento do filho o resolva a abandonar tão estranha profissão. É quando a morte de uma amiga comum, Tsuyako Yamashita (Kazuko Yoshiyuki), a perseverante dona da casa de banhos local, lhe permite assistir aos preparativos da defunta protagonizados pelo marido. A sensibilidade e carinho com que Daigo leva a cabo a tarefa convencem-na de que, afinal, estava errada, e de que a profissão escolhida pelo marido é de enorme dignidade. Daigo irá ainda ser confrontado com um encontro singular com a morte, quando recebe a notícia do falecimento do pai, desaparecido há 30 anos. Relutantemente decide-se a comparecer no funeral onde acabará por experimentar na pele os efeitos da sua nova arte. Uma obra muito bela e de uma enorme sensibilidade. Nunca a morte foi filmada de modo tão tranquilo e poético como neste Okuribito de Yôjirô Takita. Verdadeiramente, um filme que não se esquece.
Realizador: Ethan & Joel Coen Com: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, J. K. Simmons, Olek Krupa, Michael Countryman
Mesmo quando a imaginação falte em Hollywood e o público delire com a versão 3D da última sequela do remake de um filme de sucesso da década de 60, podemos sempre contar com os irmãos Coen para nos proporcionarem deliciosos momentos de ironia sobre o cinema e a sociedade norte-americana contemporâneos. O thriller de espionagem tem um lugar de destaque na história do cinema. O fim da Segunda Guerra Mundial e o início do período a que se convencionou chamar de Guerra Fria, alimentou a imaginação de autores e público, surgindo variadíssimas obras dedicadas às vidas conturbadas de espiões do lado de cá e de lá da cortina de ferro. Mas tudo isso passou à história. Hoje não há cortina de ferro e russos e americanos vivem numa lua-de-mel de conveniências mútuas. Ainda haverá público para um filme de espionagem que não seja um mero pretexto para coreografar uma mão-cheia de cenas de pancadaria e violência gratuita? Com Burn After Reading, os irmãos Coen provam-nos que sim, desde que tenhamos sido abençoados com um sentido de humor. Osbourne Cox (John Malkovich) é um analista da CIA que abusa do álcool. É um modesto funcionário mediano sem acesso a informações importantes. Ainda assim a bebida começa a influenciar o seu trabalho e o superior responsável, o oficial Palmer (David Rasche), um nome que evoca Harry Palmer e os romances de Len Deighton, retira-o do departamento e propõe-lhe um lugar menos atractivo. Cox, despeitado, prefere bater com a porta e dedicar-se a escrever as suas memórias. Não que tenha alguma coisa de importante a contar. Quando informa a mulher, a pediatra Katie (Tilda Swinton), do desejo de escrever as suas memórias, ela limita-se a rir, sarcasticamente. Mas Cox está determinado a contar os seus “segredos”, apesar de confessar ao pai incapacitado, também ele um funcionário público reformado: “Trabalhar no governo não é o mesmo de quando o pai trabalhava no Departamento de Estado. As coisas agora são diferentes. Não sei, talvez seja pelo fim da Guerra Fria. Agora parece que é tudo burocracia e nenhuma missão.” Sucede que Katie mantém um caso amoroso com Harry Pfarrer (George Clooney), um funcionário do Departamento do Tesouro, por sua vez casado com Sandy (Elizabeth Marvel), uma escritora de contos infantis. O desemprego do marido fornece-lhe o pretexto que faltava para avançar com o divórcio. A conselho do seu advogado sem escrúpulos (J. R. Horne), resolve recolher informações sobre o marido, com vista a uma futura partilha, entre as quais uma cópia das suas memórias. O CD contendo estas informações é deixado inadvertidamente por uma funcionária do advogado (Judy Frank) no ginásio. Começa então uma trama digna de Hitchcock. Manolo (Raul Aranas), um modesto funcionário do ginásio, descobre o CD e mostra-o a Chad Feldheimer (Brad Pitt), um instrutor de ideias muito curtas. Este por sua vez mostra-o a outra colega, Linda Litzke (Frances McDormand), e ao responsável pelo ginásio, Ted Treffon (Richard Jenkins). Linda andava obcecada com a ideia de efectuar uma operação estética para a qual não tinha dinheiro, pelo que resolve associar-se a Chad e chantagear Cox, para a devolução do CD. Como este não quer pagar, o duo de chantagistas dirige-se à embaixada russa com vista à venda dos “importantes” segredos de Estado. Entretanto Linda inicia um relacionamento com Harry, desconhecendo obviamente a sua ligação a Katie. A CIA, alertada por um contacto na Embaixada russa, vai seguindo atentamente a teia, sem perceber muito bem o que fazer com ela, já que as informações incluídas nas memórias de Cox, nada valem. O resultado de toda esta embrulhada é hilariante, no estilo de humor negro a que os irmãos Coen nos habituaram, e envolve mortes, comas, detectives privados, perseguições, fugas para a Venezuela e uma operação plástica paga pela CIA. No entretanto assistimos à decadência da sociedade norte-americana contemporânea, em que valores como o amor, o casamento, o patriotismo, a ética profissional e a amizade nada valem. Tudo se faz para financiar uma lipo-aspiração…
Realizador: Michael Haneke Com: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Bernard Le Coq, Walid Afkir, Lester Makedonsky, Daniel Duval, Nathalie Richard, Denis Podalydès, Aïssa Maïga
Haneke continua a explorar o lado negro da personalidade humana e, paralelamente, das sociedades francesa e ocidental as quais, sob uma capa de aparente democracia e tolerância, mantêm latentes profundos sentimentos de ódio e de racismo. Georges Laurent (Daniel Auteuil) é um crítico literário de sucesso com um programa na televisão pública onde fomenta o debate e o confronto de ideias. Mas sob esse aparente universalismo, Laurent esconde um segredo de ódio e intolerância. Laurent descende de uma rica família agrária. Um casal argelino, empregados dos pais, foi assassinado durante o massacre de 17 de Outubro de 1961, em que centenas de argelinos foram mortos pela polícia comandada por Maurice Papon, prefeito de Paris e antigo membro do regime de Vichy, e os seus corpos lançados ao Sena. Deixaram uma criança órfã, Majid (Malik Nait Djoudi), ao cuidado dos pais de Georges. Sensibilizados com o crime e preocupados com o futuro da criança os pais de Georges decidem adoptá-lo. Mas os ciúmes doentios do jovem Georges (Hugo Flamigni) levam-no a inventar doenças e instintos violentos de que a acusa Majid aos pais. Estes acabam por decidir enviá-lo para um orfanato. Este incidente determinaria a vida das duas crianças. Georges cresce rico, rodeado dos cuidados e carinhos dos pais e destinado a uma vida de sucesso. Majid (Maurice Bénichou) cresce no orfanato, onde ensinam o ódio. É-lhe negada a educação, ficando assim destinado a uma vida de pobreza e dificuldades. Georges e os pais esquecem o incidente, não lhe dedicando grande importância. Majid, pelo contrário, ao ver o programa de Georges na televisão, é confrontado semanalmente com a vida que poderia ter tido, mas que lhe foi negada pelo ódio deste. Georges vive com a mulher Anne (Juliette Binoche) e o filho Pierrot (Lester Makedonsky) numa casa dos subúrbios de Paris. A família começa a receber cassetes anónimas com filmes da sua casa sob vigilância e desenhos perturbantes (mais tarde saberemos que os desenhos evocam episódios da infância de Georges e Majid). O medo apodera-se do casal Laurent. Os vídeos seguintes mostram a casa da infância de Georges e Majid e uma rua, um corredor e uma porta desconhecidos, que Georges descobre serem da casa do argelino. O reencontro dos dois revela um Georges sem remorsos e um Majid conformado com a sua sorte, que nega ser o autor das cassetes. Mas Georges não acredita. Continua a usar Majid como bode expiatório dos seus pecados. Quando o filho Pierrot desaparece (mais tarde saberemos que a criança ficou em casa de um colega e não quis avisar os pais) acusa Majid de rapto, levando a polícia a sua casa e provocando a detenção deste e do seu filho (Walid Afkir). O reencontro acaba por se revelar fatal para Majid. Consumido pela injustiça e pela falta de remorso de Georges, suicida-se à frente do “irmão”, num grito final de revolta que Georges se recusa a compreender. Caché é um filme incómodo em que os esqueletos no armário de Georges são também os da França e da sociedade ocidental (expressos nas imagens da guerra no Médio Oriente que passam na televisão, sem que ninguém lhes ligue importância). Paris, capital assumida da democracia e da tolerância, foi o palco do massacre de 1961 que arrumou, esquecido, nos arquivos da sua memória colectiva. O luxo da burguesia “europeia” contrasta com a pobreza e a marginalidade das comunidades emigrantes, designadamente a argelina. Estas continuam a servir de bode expiatório para todos os problemas, nomeadamente no discurso dos sectores mais reaccionários da sociedade francesa. Mas há uma nova geração bem diferente de Majid. O ciclista negro (Diouc Koma) que quase atropela Georges à saída da esquadra de polícia responde-lhe com firmeza aos insultos. O filho de Majid não partilha do conformismo do pai. Ele enfrenta Georges no seu emprego acusando-o de ser um homem sem consciência. Enquanto o pai cresceu num orfanato, onde ensinam o ódio, mas viveu e educou o filho na tolerância, Georges cresceu com amor e riqueza, mas continua intolerante e racista. O episódio do desaparecimento de Pierrot é também revelador de que o filho do casal Laurent começa a desenvolver sentimentos de revolta. No final vemos, com o mesmo distanciamento e frieza demonstrados por Georges e pela sociedade francesa, o dramático episódio da ida de Majid para o orfanato. Vemos ainda as crianças que saem da escola de Pierrot, no bulício natural da juventude. Um convite à reflexão. Sobre a maldade do homem, que se manifesta mesmo em criança, e sobre a esperança que ainda poderemos manter quanto às gerações futuras. Repetirão elas os erros do presente e do passado?
Realizador: Ingmar Bergman Com: Victor Sjöström, Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Jullan Kindahl, Folke Sundquist, Björn Bjelfvenstam, Naiam Wifstrand, Gunnel Broström, Gertrud Fridh
Conhece-te a ti mesmo
Seguindo a máxima socrática inscrita, há 2500 anos atrás, nas paredes do templo de Apolo, em Delfos, Ingmar Bergman impõe ao protagonista de Smultronstallet, o eminente médico e investigador Dr. Isak Borg (Victor Sjöström) de 78 anos de idade, uma viagem de Estocolmo até Lund, onde irá receber um prémio honorário pelos 50 anos de carreira atribuído pela Universidade, que é, simultaneamente, uma viagem de auto-conhecimento, de profunda reflexão e balanço sobre a sua vida. Isak Borg é um solitário. Ele confessa-o logo no monólogo inicial do filme “A nossa relação com as pessoas consiste em discutir com elas e criticá-las. Foi isso que me afastou, por vontade própria, de toda a minha vida social. Mas tornou a minha velhice solitária. Sempre trabalhei muito, e estou grato por isso. Comecei a trabalhar para sobreviver e acabei amando a ciência.” Isak assume a sua misantropia. O relacionamento com as pessoas é difícil, conduz a frequentes críticas e discussões. Por isso se isolou e dedicou exclusivamente ao trabalho. Mas agora, chegada a velhice, sente-se só. O diálogo com a empregada Agda (Jullan Kindahl) reflecte o paradoxo da vida de Isak. Ele assume que tem a sorte de ter uma boa empregada, mas mostra-se intransigente, incapaz de aceitar as suas opiniões, ingrato mesmo para quem há tanto tempo (sabemos que a mulher morreu há 30 anos) o acompanha e lhe dá apoio. “Não se esqueça de que não somos casados”, afirma no remate da discussão, “Todas as noites dou graças a Deus por isso”, replica-lhe Agda. E mais adiante “Não me vou esquecer como são os velhos egoístas, que só pensam em si mesmo e se esquecem de quem os serviu lealmente durante 40 anos”. Durante a noite que precede a viagem, Isak tem um sonho estranho. Numa rua deserta de uma parte desconhecida da cidade vê um relógio sem ponteiros, um homem desfigurado que se desfaz e um funeral, que descobre ser o seu. O cadáver ganha vida, perante o horror de Isak, estende-lhe a mão e suplica silenciosamente ajuda. O sonho é uma mensagem onírica (vinda do seu subconsciente) de que é chegada a hora de fazer um balanço da sua vida, que a imagem que tem de si mesmo é desfigurada, que a morte inevitável está a aproximar-se rapidamente e que ainda está a tempo de redimir-se. O sonho deixa marcas no protagonista que, de manhã, decide viajar para Lund de carro e não de avião. Uma viagem que será simultaneamente um caminho para o auto-conhecimento.
A Viagem
Marianne (Ingrid Thulin), a nora de Isak, acompanha-o na viagem de carro até Lund. Será o primeiro espelho através do qual Isak verá reflectida a sua imagem desfigurada. As confissões, por vezes duras, sucedem-se, levando Isak a reconsiderar a imagem que possuía de si mesmo. Após recriminar Marianne pelo hábito de fumar e de tecer algumas considerações sexistas sobre os vícios do homem e da mulher, sucede o seguinte diálogo:
“- O que tem contra mim? - Quer uma resposta sincera? - Quero. - É um velho egoísta. Não tem consideração por ninguém e só se ouve a si mesmo. Mas esconde bem isso atrás da sua civilidade e charme. Mas é egoísta. Apesar de lhe chamarem um benemérito, quem convive consigo sabe como é na realidade. Não nos engana. Lembra-se do que disse quando eu me mudei? Achei que nos ajudaria e pedi para ficar em sua casa. Lembra-se do que disse então? - Sim, disse que era bem-vinda. - Deve ter-se esquecido, mas disse ”Não tente envolver-me nos seus problemas conjugais, cada um resolve os seus problemas”. - Eu disse isso? - E não foi só isto? - A sério? - Foram estas as suas palavras: “Não respeito o sofrimento psicológico, por isso não se lamente. Se precisar de ajuda posso arranjar-lhe um psicanalista. Ou um padre, está em voga.” - Eu disse isso? - Tem opiniões categóricas. Detestaria depender de si.”
Marianne põe a nu o carácter frio e egoísta de Isak, que se contrapõe à emotividade e impulsividade dela. Ficamos igualmente a saber que Evald (Gunnar Björnstrand), o filho de Isak e marido de Marianne, também médico e residente em Lund, é parecido com o pai. Facilmente se intuem os motivos porque está separado de Marianne. O consenso dos interlocutores acerca das suas semelhanças com o pai não deixa margem para dúvidas: ambos têm os seus princípios, nas palavras eufemísticas de Isak. Mas Marianne consegue surpreender Isak ao afirmar que ainda assim gosta de si, que tem pena dele e sobretudo, que o filho, apesar de o respeitar, o odeia.
Morangos Silvestres
Incomodado pelas palavras incisivas de Marianne, Isak decide parar e mostrar-lhe a casa onde passou férias, com os seus 10 irmãos e irmãs, até à idade de 20 anos. Uma viagem no tempo que lhe permitirá realizar um balanço sobre a sua juventude. Contemplando o canteiro de morangos silvestres da sua infância Isak recorda a vida com os pais, os irmãos e irmãs e a prima Sara, por quem se apaixonou.
“É possível que eu tenha ficado sentimental. Talvez estivesse cansado e nostálgico. Foi então que percebi que pensava em coisas que estavam ligadas à minha infância. Não sei como isto aconteceu mas a luz do dia clareou mais ainda e as imagens das minhas recordações passaram perante os meus olhos com toda a força da realidade.”
Confrontado com a casa da sua infância e o canteiro de morangos silvestres Isak despe o manto de frieza com que se cobria e deixa-se dominar pelos sentimentos há muito reprimidos. Revê momentos fundamentais da sua vida sob uma nova luz (a luz do dia clareou) que o atingiu com toda a força da realidade. Isak tem uma epifania. Vê a prima Sara (Bibi Andersson) a apanhar morangos silvestres para o aniversário do tio Aron (Yngve Nordwall ) e o seu irmão Sigfrid (Per Sjöstrand) a beijá-la, apesar da resistência de Sara que jura fidelidade ao amor declarado a Isak, de quem estaria secretamente noiva. Mais tarde assiste à confidência que Sara faz à sua irmã Charlotta (Gunnel Lindblom), sobre o incidente:
“- Isak é tão gentil. Ele é fino, honesto e sensível. Quer sempre ler poesias, falar da vida após a morte e gosta de tocar piano. Só tenta beijar-me no escuro e fala do pecado. Ele é muito melhor do que eu. Nem sei como me sinto. Não há perdão para mim. Às vezes sinto-me muito mais velha do que ele. Ele parece um menino, apesar de termos a mesma idade. E Sigfrid é tão perverso e excitante! Quero ir para casa! Não quero passar o Verão a ser ridicularizada por todos.”
Isak finalmente percebe porque razão, estando ambos apaixonados, Sara acabaria por se casar com o seu irmão Sigfrid. Enquanto Isak era honesto, mas reprimido e respeitador dos costumes, Sigfrid era impulsivo, perverso e excitante. A sua frieza e incapacidade para viver a juventude com impetuosidade e paixão, deixando exteriorizar os seus sentimentos e instintos, tinham-lhe custado o amor de Sara, por quem estava verdadeiramente apaixonado. Ao ser confrontado com a dura verdade revelada confessa que “um sentimento de vazio e tristeza invadiu o meu coração”.
O Olho que se Vê a Si Mesmo
No diálogo de Platão denominado “Alcibíades I”, Sócrates fala de um olho que se quer ver a si mesmo. Para tal deveria olhar para algo que o reflectisse, do mesmo modo que uma alma, se quiser conhecer-se a si mesma, tem de olhar para outra alma semelhante a ela. Isak irá viver essa experiência com a entrada em cena de três novos personagens: Sara (uma jovem homónima da prima, também interpretada por Bibi Andersson), Anders (Folke Sundquist ) e Victor (Björn Bjelfvenstam). Os três jovens querem partir para Itália e Sara pede para seguirem viagem no carro de Isak até Lund. O triângulo da infância está refeito perante o olho de Isak que se vê reflectido nele. A jovem Sara, livre, ousada e namoradeira, viaja com os dois pretendentes: o sorumbático e religioso Anders e o extrovertido e livre-pensador Victor. Os dois irão formular e confrontar, ao longo da viagem, as suas teorias e propostas de vida opostas, perante os olhos curiosos de Sara e de Isak. Enquanto espera no carro com Isak que Victor e Anders terminem uma das suas intermináveis discussões, Sara pergunta-lhe:
“- De qual deles gosta mais? - De qual deles tu gostas mais? - Não sei. Anders será pastor e é muito carinhoso. Mas ser mulher de pastor? Victor também é bom e irá mais longe. - Em que sentido? - Um médico ganha mais dinheiro. Pastores estão fora de moda. Mas ele tem pernas e pescoço bonitos. Como pode acreditar em Deus?”
Ironicamente Isak é médico. Mas acredita em Deus e foi ele o pastor no triângulo formado com a prima Sara e o seu irmão Sigfrid. Prosseguindo viagem Isak adormece, enquanto chove e Marianne conduz. “Dormi mas fui atormentado por sonhos e imagens que me pareciam tangíveis e humilhantes. Havia algo muito forte nestas imagens que penetrou na minha mente com determinação.” No sonho, um Isak humilhado é confrontado pela prima Sara com a sua imagem reflectida num espelho. A humilhação decorre de Isak, mesmo velho e assustado, não aceitar a verdade e recusar ver a sua imagem reflectida no espelho. Isak julgou saber tudo, mas afinal não sabia nada. Perdeu o amor de Sara e ficou apenas com a dor e a humilhação de se ver preterido pelo irmão.
O Casal Alman
Durante a viagem sucede um acidente. Isak quase embate de frente com um Volkswagen que circula em contramão, conduzido por Berit Alman (Gunnel Broström). Logo após o despiste Sten Alman (Gunnar Sjöberg), marido de Berit, pede desculpas pelo sucedido. O casal discutia e Berit ia bater no marido quando perdeu o controlo do carro. Perante estranhos Sten procura primeiro manter as aparências e inventar desculpas para o comportamento da mulher, esta porém não consegue deixar de recriminá-lo pelo seu egoísmo, vaidade e superficialidade. O casal segue viagem no carro de Isak com Marianne ao volante. Sten, irónico, acusa Berit de falsidade e histeria. Afirma mesmo que olhá-la é como observar a morte. Berit responde-lhe com novas agressões. Incomodada Marianne pára o carro e convida-os a sair, desculpando-se com os jovens que assistem à cena no banco de trás. Isak, apesar de silencioso, mostra-se igualmente incomodado pelo episódio. Mais tarde o casal reaparecerá no sonho de Isak. Sten leva Isak para um anfiteatro onde conduz um exame, alegadamente às suas competências médicas, perante uma assistência formada por vários alunos, com Sara, Anders e Victor na primeira fila. Porém o médico revela-se incapaz de responder às perguntas. Sten informa Isak que o primeiro dever de um médico é pedir perdão e de que foi acusado de culpa pela sua falecida mulher Karin (Gertrud Fridh). Berit desata a rir histericamente após Isak ter diagnosticado a sua morte. Sten leva então Isak ao exterior onde o obriga a rever uma cena marcante da sua vida. Um episódio que Isak nunca conseguiu esquecer. A sua falecida mulher Karin e o amante (Åke Fridell ) cometem adultério. Isak assiste a tudo passivamente. Karin imagina a reacção de Isak:
“Contarei tudo a Isak e já sei o que dirá: “-Pobrezinha, tenho pena de ti.” - Como se fosse Deus. Então vou chorar e dizer: “Sentes mesmo pena de mim?” Ele dirá: “Sinto muita pena de ti”. Eu chorarei e pedirei perdão. Então dirá: “Não precisas de pedir perdão, não há o que ser perdoado”. Mas não é o que ele pensa. Ele é um homem frio. Então ficará carinhoso e eu gritarei que está louco e que a sua demonstração de afecto me dá nojo. Ele vai querer dar-me algo para dormir e dizer que compreende. Direi que é tudo culpa dele. Ele ficará triste e dirá que a culpa é minha. Mas não se importa com nada. É frio como gelo.”
O casal Alman é o espelho do casamento de Isak. Tal como Sara, também Karin acusa Isak de ser frio como gelo, de viver sem paixão e de esse seu comportamento ser responsável pelo fim do casamento. Berit parece morta, mas ri histericamente. Karin para não se sentir morta, comete adultério. Tal como Sara, Isak também perderá Karin. Primeiro para o amante, depois para a morte. No final da cena Isak pergunta a Sten qual será a pena. Sten responde: “A de sempre. A solidão.”
Mais Assustadora do Que a Própria Morte
Durante a viagem Isak vai visitar a mãe (Naima Wifstrand), nonagenária, acompanhado por Marianne. Esta começa por confundir Marianne com Karin, dizendo que não quer falar com a esposa de Isak: “Ela já nos causou muitas dores”. Desfeito o equívoco ainda assim não resiste a acusá-la: “Porque não está com Evald e os seus filhos?” Quando Marianne responde que não têm filhos persiste nas críticas: “Estes jovens de hoje são estranhos. Eu tive dez filhos.”A mãe de Isak mostra-lhes os brinquedos de criança dos seus filhos, enquanto se lamenta:
“- Dez filhos, todos mortos menos tu, Isak. - Vinte netos. Evald é o único que me visita. Não estou a reclamar. Tenho quinze bisnetos que nunca vi. Mando cartas e presentes para todos nos seus aniversários. Recebo cartas de agradecimento, mas ninguém me visita, a não ser quando querem dinheiro emprestado. Eu devo ser muito cansativa. - Não diga isso mãe. - Também tenho outro defeito. Não morro. Todos os descendentes estão à espera e não há modo da herança sair…”
Mais tarde Marianne recordará a cena a Isak, com manifesto incómodo:
“- Quando o vi com a sua mãe senti muito medo. - Não entendo. - Eu pensei: - Esta é a sua mãe, uma velha fria como gelo, de certa forma mais assustadora do que a própria morte; - Este é o seu filho, e entre eles há uma grande distância. Ele sente-se um morto-vivo. E Evald sente-se no limar do frio e da morte.”
Marianne observa as semelhanças entre as três gerações. A mãe, Isak e Evald, são frios e distantes, incapazes de manifestarem sentimentos e obcecados com a morte. Todos acabam por afastar quem quer que se aproxime de si. Todos parecem condenados à solidão, uma condição mais assustadora do que a própria morte.
A Esperança
A viagem mostra-se reveladora para Isak. Além de experimentar um penoso exercício de auto-conhecimento, descobre ainda que Marianne está grávida e que esse foi o motivo da separação de Evald, incapaz de aceitar a responsabilidade de trazer uma criança ao mundo. De certo modo compreende-se a posição de Evald quando contemplamos as vidas de Isak e da sua mãe. Pai e filho sentem-se mortos, apesar de vivos. Para Evald:
“É absurdo trazer uma criança para este mundo e mais absurdo é achar que ela viverá bem. Eu fui um filho indesejado de um casamento infernal. Será que sou filho do meu pai?” “Não existe certo e errado. Agimos conforme o necessário. Isto é primário. O necessário para ti é viver, existir e procriar. Para mim é morrer, simplesmente morrer.”
Evald é um niilista. Para ele, após a destruição moral tudo cai no vazio. A vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não pode ver outra alternativa senão esperar pela morte (ou provocá-la). A circunstância de ter crescido num casamento infeliz, contemplando a destruição progressiva da mãe e o vazio emocional do pai e da avó marcaram-no profundamente. Não quer transmitir esse legado a um filho. Mas Marianne não é assim. É emotiva e impulsiva e está determinada a ter o filho, apesar da oposição do marido. Refugia-se junto de Isak, esperando que Evald, pela sua ausência, reconsidere. Também ela reviu o seu casamento no casal Alman mas, como ama Evald, recusa-se a perder a esperança. A terminar como Berit ou Karin.
Recordações
A cerimónia é eloquente. Marianne, Evald e Agda, que não desistiu de Isak e viajou de avião para assistir à cerimónia, assistem orgulhosos na primeira fila à consagração de Isak. À noite Sara e os rapazes fazem uma serenata de despedida a Isak. Sara diz-lhe que o amará hoje, amanhã e sempre, o que deixa o médico visivelmente sensibilizado. Isak desculpa-se perante uma Agda surpreendida pela mudança. Evald e Marianne saem juntos para o baile, aparentemente reconciliados. Evald confessa ao pai que pediu à mulher para ficar consigo, que não pode viver sem ela e que ela fará como entender, quanto ao filho. Isak agradece a Marianne a companhia durante a viagem e confessa-lhe que gosta muito dela. Sentimento que Marianne retribui. Isak fica então entregue às suas recordações de infância. Talvez tentando descobrir, como Marion do filme Another Woman de Woody Allen (um dos dois filmes que Allen escreveu e realizou baseados em Morangos Silvestres – o outro é Deconstructing Harry) se uma recordação é algo que se tem ou algo que se perdeu. Finalmente em paz.