domingo, 24 de janeiro de 2010

A Arte da Morte


Okuribito (2008)

Realizador: Yojiro Takita
Com: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano, Tetta Sugimoto, Tôru Minegishi, Tatsuo Yamada, Yukari Tachibana

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é violoncelista numa orquestra de Tóquio. Apesar da qualidade do trabalho desenvolvido o público não comparece aos concertos, o que leva à dissolução da orquestra e ao desemprego de Daigo.
É confrangedora a cena em que assistimos à interpretação da nona sinfonia de Beethoven, com toda a pompa e eloquência que a obra exige, com mais de uma centena de músicos e cantores em palco, para uma plateia quase vazia.
A dissolução da orquestra leva Daigo a reconsiderar a sua vida.
Será que fez uma boa opção enveredando pela carreira de músico profissional? Será que possui o talento e a perseverança necessários para prosseguir nesse caminho?
Incapaz de continuar a pagar as prestações do seu dispendioso violoncelo decide vendê-lo e regressar, com a sua jovem mulher Mika (Ryoko Hirosue), para Yamagata, a pequena cidade do interior onde nasceu e onde a mãe, recentemente falecida, lhe deixou uma casa.
O regresso a Yamagata é, desde logo, um confronto com a morte da mãe e com as recordações de infância. Daigo não esteve presente no funeral da mãe porque se encontrava no estrangeiro e não conseguiu regressar a tempo de assistir à cerimónia, facto que, de algum modo, se recrimina.
O pai deixou-os quando era ainda uma criança, o que Daigo nunca lhe perdoou. Não sabemos o que a mãe pensava sobre o assunto, mas Mika observa que ainda devia amar o marido, porque guardou religiosamente a sua colecção de discos. Foi o amor do pai pela música que levou Daigo a aprender violoncelo.
Instalados na casa materna em Yamagata torna-se necessário assegurar a subsistência, pelo que Daigo responde a um anúncio do jornal, para o que julgava ser um emprego numa agência de viagens. Sucede porém que as viagens em questão eram para mais longe do que Daigo supunha… A agência NK é na verdade uma empresa de Nokanshi, o cerimonial fúnebre japonês de preparação dos cadáveres para o funeral e a cremação.
O confronto quotidiano com a morte assusta-o. De igual modo a aceitação social da profissão está longe de ser consensual. Muitos olham-no com desprezo, incluindo a mulher, quando finalmente descobre qual a nova profissão do marido.
Ao contemplar os salmões que sobem as águas revoltas do rio apenas para irem morrer no local onde nasceram, Daigo sente-se como eles, de regresso à sua terra natal para viver diariamente o drama da morte dos outros, até chegar a sua vez de partir.
Mas, estranhamente, o violoncelista afeiçoa-se ao seu novo trabalho. Ao ver trabalhar o seu mestre Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki) e ao contactar com os familiares agradecidos dos defuntos, Daigo apercebe-se da beleza, da arte e da humanidade da profissão. Dedica-se-lhe de alma e coração tornando-se um excelente profissional.
A mulher não compreende essa opção e pede-lhe para deixar aquele trabalho indigno. Como Daigo recusa, ela deixa-o e muda-se para casa dos pais.
Quando finalmente regressa, informa-o que está grávida, esperando que o nascimento do filho o resolva a abandonar tão estranha profissão.
É quando a morte de uma amiga comum, Tsuyako Yamashita (Kazuko Yoshiyuki), a perseverante dona da casa de banhos local, lhe permite assistir aos preparativos da defunta protagonizados pelo marido. A sensibilidade e carinho com que Daigo leva a cabo a tarefa convencem-na de que, afinal, estava errada, e de que a profissão escolhida pelo marido é de enorme dignidade.
Daigo irá ainda ser confrontado com um encontro singular com a morte, quando recebe a notícia do falecimento do pai, desaparecido há 30 anos. Relutantemente decide-se a comparecer no funeral onde acabará por experimentar na pele os efeitos da sua nova arte.
Uma obra muito bela e de uma enorme sensibilidade. Nunca a morte foi filmada de modo tão tranquilo e poético como neste Okuribito de Yôjirô Takita.
Verdadeiramente, um filme que não se esquece.

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